Estátuas

Há uma certa data e horário à noite em Curitiba em que a cidade toda dorme. Não se ouvem passos na Rua XV, muito menos na pavimentada São Francisco. Neste dia, durante uma hora, as estátuas se encontram para conversar. Pode parecer loucura, mas ninguém as vê. As estátuas do Homens Nus saem para visitar Getúlio Vargas na Praça Tiradentes. Mateus Leme, no Parque São Lourenço, tenta chegar o mais rápido possível até o busto de Julia Vanderlei no Jardim Botânico, para ter dois dedos de prosa. O Barão do Rio Branco, no Paço da Liberdade, reúne-se aos dois bombeiros da praça Rui Barbosa para conversar com as mulheres do chafariz da praça General Osório. Elas, sabendo que eles viriam, apoiam-se na beira da fonte, vendo-os chegar.
– Olá, rapazes! – dizem elas em uníssono. – Quais são os suvenires que nos trazem?
– Olá, minhas belas senhoras! – dizem os dois bombeiros ao mesmo tempo. – Escolhemos as pérolas da cidade… claro, todos as pessoas são fantásticas, mas separamos boas histórias como lembrancinhas. E você, Barão? O que nos traz?
O Barão alisou os bigodes maciços e verdes antes de dizer:
– Aaaaaaah! Vocês vão gostar dessa… Um rapaz pediu a mão de uma garota na minha frente!
– Não brinca! – falaram as meninas da Osório, simultaneamente. – Ela disse “sim”?
– Com um sorriso tão largo que me arrepiaria se tivesse pele.
Todos riram, mas logo pararam. Não podiam perder tempo, uma conversa com aquela somente no próximo ano. Uma das mulheres do chafariz disse:
– Mês passado vimos estudantes alegres… passaram na federal!
– Sim! – concordou outra mulher na fonte. – Eu tenho inveja é de Alfredo de Assis Gonçalves, o busto dele fica bem ao lado do Prédio Histórico.
– Vimos vários alunos sujos de lama passando por nós… amamos essa época do ano – comentaram os bombeiros. – A nossa vista não tem sido muito alegre, mas nem por isso deixa de ser preciosa. Alguns moradores de rua dormem perto de nós… eles conversam sobre tudo. Muitos tem sonhos de saírem do país, voltar a estudar ou mesmo lecionar… há até professores entre eles. Alguns cantam canções feitas por eles, poesias inéditas só para nós, com estrofes diversas, desde amores não correspondidos até versos para os cães que os acompanham. Vemos tudo aquilo que as pessoas não notam quando somente dão esmolas, mas não os ouvem. Sabemos histórias de vida que superam em muitos os livros que eles mesmos às vezes leem encostados em nós.
O Barão fungou e disse:
– E ainda somos chamados de turismo. Parte da história da cidade está naqueles que a compõe.
Um morador de rua mexeu-se debaixo de um banco. Todos olharam e souberam que estava na hora de despedir-se. Cada um voltou ao seu lugar em meio ao frio curitibano, esperando que, no próximo ano, tivessem novas histórias da cidade para contar.

Texto e ilustração por Alan Klein

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